segunda-feira, 24 de agosto de 2009

A Estrangeira

Era uma vez…

Uma jovem, um país distante, um comboio velho, uma noite sem lua. Foi assim que tudo começou…

Depois de muitas noites de luar, de muito lutar e sonhar, foi naquela noite, que, num misto de tristeza e alegria cheguei ao lugar destinado. Vinha nesse comboio velho, nessa noite sem lua, acabada de chegar a esse país distante em que nem o olhar do único ser humano naquela carruagem ruidosa me parecia humano.
Senti um alívio ao finalmente chegar ao apartamento que me era destinado. Depois de alguns metros que percorrera desde a estação de comboios até ali, parecia que tinha caminhado toda uma vida. O frio entranhava-se nos ossos, a bagagem parecia pesar toneladas e até aqueles escassos metros pareciam a distância da Terra á Lua. Não se via ninguém na rua, tudo era escuro, escasso, distante e demasiado sombrio.
O apartamento! Abri a porta e pensei: - Será que tudo o que encontrava neste novo e estranho local tinha que me fazer sentir aquele arrepio na barriga, aquela sensação nos olhos que indica (qual indicador do painel de instrumentos), choro compulsivo em aproximação perigosa e eminente!? Mas não era só isso. Era algo maior e mais assombroso. Era o afirmar que deixava tudo para trás e que isto ia ser casa. Era o ser engolida por um enorme desconhecido. Era assumir a possibilidade deste sonho falhar, assumir fraqueza, derrota. Era o medo!
Quando dei por mim (depois de talvez minutos perdida nestes pensamentos), estava uma rapariga junto á porta, com uns enormes olhos azuis, cabelos quase tão brancos como a neve, a sorrir dizendo: - Hello! – Era a minha colega de casa, também estrangeira, a Anna. Não me apetecia nada estar ali a falar com ela sobre nadas e ainda manter aquele sorriso amarelo. Mas assim foi. Depois de apresentações e meia hora de conversa da treta, finalmente a Anna decidiu que eu devia estar cansada e que devia descansar. O momento perfeito! Por fim podia sair daquele canapé, que de velho tinha perdido a cor, perdido o conforto, perdido a vida! Tudo me doía depois de me levantar. Não sei se era do canapé e da sua falta de comodidade ou do meu coração.
Agora tinha que percorrer o longo caminho que me separava do quarto. Estava na hora de uma nova almofada, de fechar os olhos e acordar numa nova realidade. E quanto eu queria que toda esta aterradora realidade interior fosse apenas um sonho… mas na manhã seguinte tudo era igual. Nem o copo que estava na mesinha de cabeceira tinha deixado de me parecer menos velho e riscado. Só a réstia de sol que entrava pela janela podia transparecer que algo podia melhorar, a esperança de… Knoc, knoc! Era a Anna. Interrompia um meu desligado e errante pensamento, para me anunciar que estávamos atrasadas. Novamente com aqueles grandes olhos azuis e um enorme sorriso que só transparecia alegria.
Numa gigante correria despachei-me, saímos para aquele clima gélido e 15 minutos já estávamos de novo noutro edifício. Era enorme, todo de pedra, arquitectura imponente. Entrámos e um jovem, olhando o nosso ar de estrangeiras perdidas (depois de um breve olá e um demorado sorriso), indicou-nos o nosso destino. Pensei eu: - Que jovem simpático! Talvez valha a pena desfazer a mala e aceitar o desafio. Mas quando voltei a mim, voltou também a desilusão. Estávamos agora dentro de um gabinete demasiado pequeno, com um homem demasiado grande, que expunha (com uma arrepiante ordem e brio) um sem número de utensílios de escritório de diferentes cores e tamanhos. Sentámo-nos. Todos aqueles confusos sentimentos tinham rapidamente tomado conta de mim e nada daquilo fazia sentido… Aquele homem bujardado falava rápido demais e o meu fraco conhecimento da língua que falava fazia com que na minha face se espelhasse a expressão de quem queria fugir. E era verdade. Depois de quase uma hora deste suplício, não havia nada que tivesse melhorado. Antes pelo contrário, a Anna estava em amena cavaqueira com aquele estranho senhor, com um sorriso rasgado e agora ele imprimia mil e um papéis que, com uma incrível perícia e precisão, agrafava. Sempre num ciclo, que, para mim, parecia não terminar. Quando eram grandes molhos de papel, usava um colossal agrafador em metal, que com o mesmo cuidado e perícia colocava exactamente (quase com régua e esquadro) no mesmo local. Quando eram poucas folhas empregava um agrafadorzinho, pequenino e amarelo. Novamente, perdida neste mundo de infinitas folhas, continuamente impressas, agrafadas sem cessar, que recebo um safanão desmedido e vejo a Anna em pé. Tinha, na mão, todos aqueles molhos de papel e estava a despedir-se do senhor doutor cujo nome nem me recordo, nem nunca consegui pronunciar.
Tudo aqui ora acontecia excessivamente devagar, ora excessivamente depressa. Eu não estava a apanhar o ritmo desta música, era como se batesse palmas fora do tempo. Como podia passar a considerar casa este estranho lugar, rodeado de montanhas, frio, com pessoas que nem compreendia, uma casa sombria e velha e noites sem luar? Pensei que, quando chegasse de novo ao apartamento, ia pegar de novo nas malas e com um grande sorriso explicar á Anna que não podia ficar e educadamente desejar-lhe boa sorte para esta aventura que eu tanto queria desistir.
Depois olhei para a Anna, que era agora apenas uma estranha que me guiava por aquele imponente edifício, até que chegámos ao exterior Depois, no seu melhor inglês explicou-me tudo o que tinham falado no gabinete e entregou-me alguns molhos de folhas, também num inglês de esperança, que continham todas as informações, indicações, tudo que o precisava. Pelo menos, para que aquele sentimento tão sombrio se tornasse um pouco mais claro.
Tínhamos um encontro, ainda durante a manhã, com o grupo dos que iriam estar na mesma situação que eu. Até lá, desafiou-me a Anna, um pequeno passeio para explorar a zona. Fui um pouco a contra-vontade, pois apesar de uma pequena melhoria, nada me fazia aceitar definitivamente que ia ficar. Era o dilema… O frio contra os ribeiros das montanhas que me contagiavam. Era a comida que via na esplanada contra aquele céu limpo e as pessoas que agora passavam alegremente de bicicleta pela rua.
Após um breve deambular pela zona que circundava aquele majestoso edifício chegou a hora de conhecer aqueles que pensava em abandonar. Chegadas a uma sala espaçosa e com muita luz, a surpresa! Uns, como a Anna, rapidamente cumprimentavam todos, conversavam e riam, outros espelhavam a mesma expressão de horror que eu. Entretanto chegou um homem vistoso, alto e que em alto e bom som disse: - Hello! Welcome! I’m Steve! Seguidamente num tom afável, a um ritmo pausado, num inglês correctíssimo nos falou da sua experiência. História que afinal, não era assim tão diferente de tantos de nós que ali estávamos.
Todas as palavras ecoavam na minha cabeça como uma pedra lançada á água. Penetravam nos meus medos, preconceitos, tristezas, ideias e ecoavam trazendo algo totalmente novo e surpreendentemente alegre. Será que já não tinha que voltar á minha terra natal, admitir ao mundo que não tinha sido capaz?
No fim desta breve palestra colocaram uma pequena mesa com algumas iguarias da região, que o Steve, satisfeito, oferecia a todos. Quando me abordou, de pratinho na mão, com aqueles bolinhos que pareciam uma grande bola de qualquer coisa multicor e definitivamente intragável, não consegui esconder a minha expressão de terror. Depois pensei nesse antigo provérbio que tanto sentido fazia agora: “Em Roma, sê romano.” e a custo peguei no bolinho engolindo-o de uma vez. Depois de um leve sabor amargo tornava-se doce e agradável. Era estranho, mas bom. Talvez a forma de encarar esta situação fosse como aquele bolinho assustador que se tornou numa feliz experiência.
A realidade é exactamente essa. Foi necessária coragem, foi necessário ultrapassar o preconceito e experimentar esses bolinhos mesmo, que o aspecto não fosse o melhor. Este derradeiro desafio era afinal o concretizar de um sonho, uma experiência que não podia desistir assim facilmente. Foi precisamente esta a motivação que me conduziu ao longo de um ano de muita aprendizagem e crescimento para que um ano depois fosse eu a dizer. -
- Hello! Welcome! I’m Maria.

Minimina,
Entregue a 20-07-2009, 19h51

Sem comentários: